Felicidade

Se “a felicidade só é real quando compartilhada”, ela não pode se assemelhar, de modo algum, com o ter e o ser, tão altamente considerados pela nossa sociedade, uma vez que para ter e ser é preciso submeter-se à poluição inerente ao reino da estupidez. Os indivíduos “poluidificados” confundem a felicidade com suas tendências volitivas e voluptuosas (ser alguém que “chegou lá”, que tem isso e aquilo...), de modo que se mantêm inférteis, ou seja, infelizes... No entanto, não temos e não somos nada definitivamente. Afinal, o que temos não foi nunca nosso, pois já existia aí, na natureza, mas com outra configuração. Do mesmo modo, o que somos é apenas um efeito temporário, visto que não cessamos de mudar. Ao contrário do que muitos acreditam, a felicidade não é um objetivo, não é um estado final, é antes um processo – ou melhor, é a nossa própria obra em processo que nos torna felizes, pois ela, a obra, não visa o autor (pois ele é somente um efeito ilusório), mas tende a tocar os outros humanos (a felicidade compartilhada...). Mais ainda: como os humanos pertencem ao cosmos, a felicidade é necessariamente cosmológica e não antropomórfica, de “origem humana” – embora ela também se efetue em humanos... Mas se o cosmos é eternamente processo, ou um obrar inacabado, a felicidade somente pode ser eterna.

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