Fragmentofluxo

Apesar de muitos acreditarem na configuração total da humanidade, podemos permitir nossas diferenciações que, por mais paradoxal que seja, surgem de conexões que se tornaram possíveis em razão do processo de “unificação da humanidade”. Para nós, a configuração total existe apenas como ideal, pois ela é impossível de se efetuar – a história humana atesta incontáveis destruições de povos e impérios, e o consequente surgimento de outras configurações temporárias que exprimiam outros modos peculiares e imprevisíveis de perceber e sentir a realidade. É por isso que outras configurações podem surgir no interior da “aldeia global”. Trata-se, portanto, da simplicidade impessoal nas relações que investimos nos movimentos transmitidos pelos agregados de fragmentos que constituem tudo que existe na natureza. O império da sistematização confinante, seja ele qual for, pode, em aparência, ser absoluto. No entanto, ele jamais irá eliminar a velocidade absoluta daquilo que escoa da eternidade – afinal, o império do real-Sempre, isto é, do real-fragmentofluxo, é o único império universal... Em razão desse império, somos um composto não totalizante de fragmentos (forças, átomos, partículas), ou seja, somos cosmoindivíduos, pois sempre nos desindividualizamos ao nos afetarmos pelos fragmentos de um indivíduo aqui, de outro indivíduo ali, seguindo, ativamente ou não, em uma continuidade diferenciante. É por isso que até quem faz as coisas que nos envergonham, continua a ser um agregado temporário de fragmentos impessoais que se diferenciam, já que eles estão em fluxo, causando mudanças de percepção que, inclusive, podem levar ao assombro quem está tão habituado às formas antropomorfizadas... Mas para quem não leva mais essas formas a sério, deseja ser cada vez mais atraído pelo fragmentofluxo.

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