Amanhã

O amor cosmológico nos faz olhar para as próximas gerações acompanhado de uma felicidade que, talvez em essência, se assemelhe àquela que os pais têm com seus bebês – o bebê cresce, a vida aparece no mundo... assim como a nossa obra que está em processo... Os sentimentos de amor e felicidade cosmológicos caminham juntos, lado a lado, e são mais fortes do que as tristezas inevitáveis que aparecem na existência de qualquer um de nós. O cuidado com a nossa obra que se dirige ao Amanhã é, para ser mais exato, um cuidado, aqui e agora, de nós mesmos. Como somos uma configuração singular que não veio do nada, mas daquilo que já existia antes do nosso nascimento, dirigir-se ao futuro é afirmar e amar as configurações que irão surgir a partir do que somos atualmente – mas isso também é afirmar e amar as infinitas configurações que nos precederam. Portanto, o amor às configurações que já existiram, e às que vão existir, envolve, necessariamente, o amor a nós mesmos como singularidades que participam do Sempre... Trata-se de uma continuidade diferenciante, “um seguir-no-mundo que nunca se submete ao cálculo e à previsão”. Em razão disso, o passado do universo não está a bilhões de anos atrás, mas está em cada parte de cada coisa que existe – são fragmentos que, futuramente, irão constituir as coisas que, atualmente, somos incapazes de saber como elas serão, embora, seja do modo que acontecer, o passado do universo não deixará de estar nelas, mas de modo diferente. Diante dessa sabedoria, a vaidade humana é inútil, digna de vergonha, pois todos os atuais seres existentes participam, queiram ou não, desse processo gloriosamente inacabado. Afinal, tudo o que fazemos somente é possível porque nos apoiamos naquilo que os outros fizeram – e outros que virão depois de nós vão ter que se apoiar naquilo que, atualmente, fazemos com a nossa existência.

Comentários