Segregação

Pensamos e afirmamos a existência de uma igualdade que concerne a todas as existências, sejam elas animais, vegetais ou minerais, pois são existências que, com graus diversos, ressoam entre si e, por isso, levam adiante, cada uma a seu modo, aquilo que receberam. Ora, nessa perspectiva, não há modos de existência que sejam essencialmente antagônicos, pois todos participam da continuidade universal. Porém, por outra perspectiva, dizemos que há, entre os indivíduos humanos, uma desigualdade que está relacionada, principalmente, ao uso do tempo, algo que pode ser atestado pelos que não se submetem a uma segregação concebida por critérios nascidos da estupidez, que distribui a cada um o seu legítimo lugar na sociedade (a forma “superior” do branco, a forma “inferior” do negro, etc.) – então, é evidente que a segregação somente opera dentro do limite da sistematização confinante, com seus conjuntos antropomorfizados, onde os indivíduos são escravos das hiperconexões entorpecedoras e voluptuosas, ou seja, vivem sem tempo para eles mesmos... É por isso que a “vontade de inclusão” se torna um perigo quando ela não é percebida como um recurso indispensável para preservar a crença na descontinuidade que multiplica a soberba, as opiniões, o ódio e o pessimismo naqueles que apenas sobrevivem no Cativeiro – a inclusão que estimula a competição, o orgulho pela identidade, o sentimento de ser finalmente “ouvido”, funciona, sem dúvida, como uma captura sutil e irresistível. Ao serem fixados pela inclusão, a segregação inevitavelmente permanece, pois os humanos continuam apartados do conhecimento de uma igualdade que já existe e está fora do Cativeiro... Mas, afinal, qual artifício segregacionista pode efetivamente nos impedir de levarmos adiante aquilo que alterou nossa percepção (por ter estimulado nossa potência de pensar), e que nos libertou do embotamento dos nossos sentidos (por ter estimulado nossa sensibilidade)?...  

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