Hoje

Uma questão importante, que envolve a nossa percepção, é sobre a nossa posição diante dos fatos que se apresentam a nós, principalmente, por intermédio da mídia de massa. Não se fixar no Hoje pode parecer, para muita gente, covardia, renúncia, resignação, enfim, uma postura de quem “não muda o mundo”, já que é comum acreditar que toda mudança somente é válida se ela for nítida, e o que não é facilmente percebido não pode ter validade, pois é considerado “inexistente”. Mas quem pensa assim não prestou suficiente atenção no fato de que as mudanças que nós mesmos passamos somente são percebidas tardiamente, pois quando, de fato, elas ocorrem, não podemos percebê-las – as forças já estavam lá, agindo impiedosamente em nós, mas sem serem percebidas como tendências afetivas que tecem a nossa existência e que configuram o Hoje. É evidente que as ações que são facilmente percebidas têm maior poder de persuasão do que as que não são, porque aquelas são rapidamente atribuídas a sujeitos conscientes. Mas todo Hoje surge do não percebido, do insensível, do imprevisível, do sem-sujeito!... Portanto, podemos compreender o mundo de hoje com mais precisão a partir das ações que não são percebidas, e não simplesmente pelos seus efeitos facilmente constatados e que estão separados das suas causas imperceptíveis. Isso não significa que devemos desprezar as denúncias que concernem às percepções de tudo aquilo que, hoje, rebaixa a existência humana em diversos níveis, pois elas servem de lente de aumento para questões que não podem ser ignoradas. Mas o que queremos destacar é a importância de podermos nos servir de uma outra lente, pois, caso contrário, passamos a falar demais para tentar explicar o Hoje, continuamos a lamentar a sucessão de acontecimentos que levam um determinado povo, ou a humanidade, a direções perigosas, assistindo, estupefatos, o desmoronamento de crenças consideradas até pouco tempo como sólidas – pode haver até um niilismo nessas falas que têm o poder de tornar os outros ainda mais cansados do Hoje, convencendo-os a negar perigosamente o Amanhã... Se as tendências volitivas e voluptuosas imperam no nosso Hoje, outras configurações, efetivamente saudáveis, somente podem surgir a partir de estímulos das tendências desejantes e exploradoras – mas, para isso, é necessário polir as nossas lentes que foram feitas para a percepção nítida do efeito, mas não da causa.

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