Cosmoindivíduo

Parece ser inevitável a representação do indivíduo humano como se ele fosse um ser vivo dissociado do cosmos, e que algumas coisas exteriores que ele encontra existem para serem utilizadas de modo que, por meio da sua inteligência, possa subjugar e controlar a natureza. Mas a ciência, mais uma vez, desfaz essa ilusão ao afirmar que nós, seres altamente vaidosos, somos feitos de partículas de poeira de estrelas – sim, “insignificantes” partículas anônimas estelares. Segundo a ciência, a explosão estelar conhecida como “Supernova” lançou seu material por todo o espaço interestelar e, consequentemente, passou a fazer parte da formação de planetas e de seres vivos, ou seja, “toda a vida na Terra e os átomos em nossos corpos foram criados no forno de estrelas agora mortas” (1). Não há dúvida quanto a direção que essa confirmação científica aponta: para o comunismo cosmológico... O indivíduo autônomo, ao contrário do que a linguagem pode sugerir (por reduzir a realidade ao verbo ser), é aquele que sabe que faz parte desse comunismo – sua autonomia decorre da descrença nas divisões imaginárias, isto é, ele é autônomo não por desprezar o “coletivo”, mas por exatamente se abrir às conexões cósmicas que não estão apenas em “outro lugar”, mas estão aqui mesmo, na Terra, que permitem a sua desindividualização (ao se alimentar do fluxo do real, faz multiplicar seus disfarces). Não há mais o abismo entre o indivíduo, de um lado, e o coletivo, de outro lado, mas sim um coletivo de indivíduos autônomossob esse conjunto, há um outro conjunto, mas de forças, átomos, partículas, que mantém os indivíduos conectados ao cosmos. Talvez a melhor palavra para expressar a ideia desse subconjunto seja cosmoindivíduo... Mas pela noção habitual do indivíduo humano não saímos do problema da representação de um coletivo que é, necessariamente, antropomórfica. Por exemplo: no sentido político, “direita” e “esquerda” seguem atoladas nos equívocos da linguagem, pois enquanto uma fala sobre o privilégio do indivíduo, a outra fala sobre o privilégio do coletivo – sendo que esse coletivo ainda é um conjunto de indivíduos que não se percebem como cosmoindivíduos!... É evidente que as divisões e unificações imaginárias são indispensáveis para a organização da nossa existência, inclusive para haver a distinção entre as demandas dos coletivos. Mas o problema realmente não é esse. O problema é a força hipnotizadora que essas imagens exercem sobre a nossa capacidade de pensar, nos separando da experiência da igualdade na continuidade e dos problemas que são colocados nesse nível, que é o das conexões cósmicas.

1. “Somos realmente feitos de poeira das estrelas?”: https://goo.gl/fXLfTy 

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