Transfiguração

Não há mais vaidade quando sabemos que somos um sem-número de forças anônimas volitivas e voluptuosas, desejantes e exploradoras, impulsivas e criadoras, que realmente não nos pertencem – ao contrário, nós é que pertencemos a elas... É por isso que não se trata de “conscientizar” a humanidade sobre os riscos do seu anseio descontrolado por prazeres, visto que são as tendências volitivas que continuam a dirigi-la, e não o contrário. Como o Hoje não está separado do Sempre, a atual configuração da humanidade pode, ao menos, servir como lente de aumento para percebermos a necessidade da realização da sua transfiguração. Mas não se trata de uma representação da transfiguração, de um espontâneo “querer ser diferente”, e nem algo como a metamorfose da lagarta em borboleta – a transfiguração é sentida como a própria natureza das forças em nós que não estão destinadas a uma configuração específica, ou seja, de que somos essencialmente parte de uma realidade inesgotável de novas configurações que não podemos sequer imaginá-las. A transfiguração não é um fenômeno escandaloso e arbitrário, mas sutil e involuntário, cujo efeito é o de vivermos realmente diferente do que vivíamos, com a consciência de que não somos mais donos de nós mesmos, de que estamos a serviço das forças impulsivas, pois elas gritam por isso... São gritos que, devidamente escutados, podem gerar novas configurações que exprimem a nossa serenidade e confiança na vida.

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