Deserto

Se o Cativeiro é o lugar da configuração dominante das tendências volitivas e voluptuosas, a Selva é o lugar da reconfiguração, com domínio das tendências desejantes e exploradoras. Mas há, ainda, a transfiguração operada pelas tendências impulsivas e criadoras em outro lugar, que é o Deserto. Uma coisa é o prazer como fim; outra coisa é a exploração como meio; outra, ainda, é a criação como início... Atravessamos essas regiões e, de acordo com o momento em que vivemos, priorizamos uma em detrimento das outras. Ao saírmos do Cativeiro, finalmente nos encontramos na Selva – porém, o Cativeiro sempre está ali, adjacente, acenando para nós com suas hiperconexões sedutoras. Por isso é necessário, sempre que possível, irmos para o Deserto, que, aliás, pode ser encontrado na Selva, nem que para isso tenhamos que agir, pelos olhos de muitos, de modo “enlouquecido”... Mas há prudência nesse modo “enlouquecido” de agir, pois não chegamos ao Deserto em apenas um salto, não há um “teletransporte” que nos leve a ele – chegamos ao Deserto de exploração em exploração, algo que é favorecido pela sistematização afetante. Entretanto, o Deserto não é a terra prometida, mas apenas a região necessária para o despertar das nossas tendências impulsivas. É nele que não há mais o livre sujeito que sente, pensa e cria, mas apenas um “deixar vir aquilo que é incerto”, que não tem mais forma, divisão, hierarquia. E o que pode nos colocar em direção ao Deserto? Somente ela... a indispensável saudade de estar consigo mesmo... Se a criação é o início, a experiência do Deserto não pode ser ignorada por demasiado tempo. 

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